Insights · Ensaio

Saídas começam na estrutura

Jon Francisco Toscano · Outubro 2026 · Leitura de 4 min

A pergunta que ninguém faz na entrada

Em quase toda rodada de investimento, a conversa gira em torno do valuation, do tamanho do aporte e do plano para os próximos meses. Uma pergunta costuma ficar para depois: como esse capital volta?

Deixar a saída para depois parece prudente. Ninguém quer vender uma empresa que acabou de nascer. Mas, na prática, essa omissão tem custo. Muitas das decisões que determinam se uma empresa poderá ser comprada, e por quem, são tomadas justamente na entrada: quem tem quais direitos, como se decide, o que está documentado e o que ficou combinado de boca.

Quando a saída finalmente entra na pauta, anos depois, boa parte do caminho já foi pavimentada — ou bloqueada.

Três caminhos, três exigências

Em empresas fechadas, a saída raramente tem uma forma só. Em linhas gerais, há três caminhos, e cada um pede algo diferente da estrutura.

A venda a um comprador estratégico exige que a empresa seja compreensível e transferível: contratos que sobrevivem à mudança de controle, propriedade intelectual em nome da companhia, passivos conhecidos, uma tabela de capitalização sem surpresas. O estratégico paga pelo encaixe com o próprio negócio, mas só depois de entender o que está comprando.

A venda secundária — quando um investidor vende sua participação a outro — exige regras claras de transferência: direito de preferência, tag along, drag along e um acordo de acionistas que diga como cada situação se resolve. Sem isso, a participação de um minoritário pode ser difícil de vender, por melhor que vá a empresa.

A recompra, pela própria companhia ou pelos fundadores, exige que a possibilidade tenha sido prevista: critérios de preço, prazos, condições. Recompra improvisada tende a virar negociação tensa entre pessoas que precisam continuar trabalhando juntas.

Nenhum desses caminhos está garantido. Mas cada um deles fica mais estreito quando a estrutura não o previu.

O que torna uma empresa comprável

Compradores não pagam só por receita, tecnologia ou marca. Pagam pela confiança no que estão adquirindo. E confiança, em M&A, se constrói com documentos.

Uma tabela de capitalização limpa é o ponto de partida: quem detém o quê, em que condições, com quais opções e instrumentos conversíveis em circulação. Sócios que saíram sem acordo, promessas informais de participação e conversíveis empilhados sem cálculo estão entre as razões mais comuns para que uma transação atrase, perca valor ou simplesmente não aconteça.

Depois vem a governança. Uma empresa com conselho atuante, decisões registradas e demonstrações financeiras confiáveis atravessa uma due diligence com muito menos atrito do que outra em que tudo depende da memória do fundador.

Por fim, os direitos. Cláusulas de mudança de controle, direitos de arraste e de acompanhamento, mecanismos de saída do investidor. Bem desenhados, alinham os interesses no momento em que surge um comprador. Mal desenhados, ou ausentes, transformam uma oferta em impasse.

Uma empresa se torna comprável muito antes de alguém querer comprá-la.

O que aprendi na prática

Comecei a carreira na Icatu Equity Partners, o braço de private equity do Banco Icatu. Lá, originei o investimento na Mabel, mais tarde adquirida pela PepsiCo.

A lição que levo daquela época não diz respeito ao resultado de uma transação específica. Diz respeito à ordem das coisas. Um comprador de porte global só se aproxima de uma empresa quando consegue enxergá-la por inteiro — e o trabalho de torná-la enxergável não começa quando o comprador bate à porta. Começa muito antes, na forma como a estrutura é desenhada e mantida ao longo dos anos.

A mesma lógica vale em contextos muito diferentes: as empresas que conseguem aproveitar uma oportunidade de saída raramente são as que se prepararam para ela às pressas.

Como trazemos isso para a entrada

Por isso, na Trivèlla, a conversa sobre saída começa antes do primeiro aporte. Antes de investir, buscamos mapear quem seriam os compradores naturais de uma empresa, quais caminhos de liquidez são plausíveis e o que precisaria estar em ordem para que cada um deles permaneça aberto.

Na prática, isso se traduz em estrutura: acordos de acionistas que tratem de transferência e mudança de controle, governança proporcional ao estágio da empresa, tabela de capitalização organizada desde a primeira rodada e capital liberado por marcos, para que cada etapa deixe a empresa mais legível do que a anterior.

Nada disso garante uma saída. Mercados fecham, compradores mudam de estratégia, empresas não atingem o que planejaram, e investimentos em participações podem resultar em perda parcial ou total do capital. O que a estrutura faz é outra coisa: quando a oportunidade aparece, buscamos que a empresa esteja em condições de considerá-la — em vez de perder meses tentando explicar o próprio passado.

A saída não é um capítulo que se escreve no fim. Boa parte dela se escreve no começo.

Para conhecer a tese aplicada em nossos fundos, veja Venture Capital. Para conversar com a equipe, fale conosco.

Os mecanismos de estruturação descritos refletem a disciplina de investimento buscada pela Trivèlla e não eliminam riscos. Investimentos em participações e em venture capital envolvem riscos relevantes, incluindo baixa liquidez, longo prazo de maturação, concentração e possibilidade de perda parcial ou total do capital investido. Não há garantia de resultado.

Este material tem caráter exclusivamente informativo e não constitui oferta ou recomendação de investimento.

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Investidores

Fundos de venture capital construídos sobre estrutura.

Fundos destinados a investidores qualificados (Resolução CVM nº 30). Informações restritas a investidores com acesso individual.

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